Pregação – 19/10/2014 – Dia da Reforma e Culto da Parceria

Prédica sobre o Dia da Reforma
Culto alusivo à Parceria CECLB/ELKB, em 19/10/2014, em Brasília/DF
P. Jochen Ackermann (Comunidade de  St. Johannis/Nürnberg)
Estimados irmãos e irmãs em Cristo,
(Introdução: Reforma Luterana)
Ao celebrarmos a memória da Reforma, pensamos naturalmente em Martim Lutero que, há 500 anos, com suas 95 teses, iniciou a discussão a respeito dos conteúdos da fé cristã e da forma adotada pela Igreja. Naquela época, isso exigiu muita coragem, assim como teve vastas e extensivas consequências para Lutero: Ele foi, inclusive, “excomungado”, ou seja, ele foi oficialmente excluído da comunhão dos cristãos. Ele não tinha mais permissão para participar da Santa Ceia, nem para ir aos cultos e, muito menos, para pregar. Para ele, as portas da Igreja estavam fechadas. Ele foi declarado como banido pelo Imperador da época. Assim sendo, Lutero foi tido como um “fora-da-lei”, uma pessoa sem direitos: nenhuma cidade poderia recebê-lo, ninguém poderia conceder-lhe abrigo. Qualquer um tinha a permissão para matá-lo sem que fosse por isso punido. Ele tornou-se um homem sozinho contra o Estado e a Igreja.
Lutero sabia das consequências dos seus atos. Teria sido muito mais simples para ele se retratar, voltar atrás e desculpar-se – mas ele não quis e não podia fazer isso, porque se via e se entendia como alguém “cativo à Palavra de Deus”. Na Dieta Imperial ou Assembleia Deliberativa Imperial, ocorrida na cidade de Speyer, [em 1529], sozinho, Lutero se posicionou diretamente contra o Imperador e contra os enviados do Papa, ou seja, contra as autoridades mais poderosas do Estado e da Igreja da época, dizendo: “Se com base na palavra bíblica tenho ciência de que é correto aquilo que aqui estou afirmando, então, não tenho permissão para retirar nada daquilo que afirmei em ocasiões anteriores!”. Só por essa sua coragem já podemos admirar Lutero e honrá-lo, mas ele nunca quis ser tido como um herói da Fé. A sua intenção e desejo foi precisamente o de colocar um sinal – “pró-atestar”, ou seja, edificar um testemunho sobre a autoridade do conteúdo da Bíblia.
(Primeira parte: Cativo – deste ou de outro modo)
“Cativo à Palavra de Deus” – Se quisermos compreender a postura de Lutero, devemos entender o que significa “estar cativo à Palavra de Deus”.
Quando ouvimos a palavra “cativo”, facilmente pensamos em algemado, amarrado, preso. E claro, é também deste modo que muitas pessoas experimentam a Palavra de Deus: os cristãos estão algemados por meio das regras eclesiásticas, restringidos pelos mandamentos divinos.
ASSIM se sentem muitas pessoas diante de Deus: amarradas, cativas… Infelizmente, foi desse modo que a Igreja, sempre de novo, transmitiu seu ensino. Por isso, muitas pessoas abandonaram o contato com a fé cristã e com a Igreja, ou seja, se desvencilharam das amarras.
O que, então, pode ser capaz de me conceder apoio?
Certamente, o sucesso profissional, a segurança através do bem-estar, os serviços que o mercado me oferece…
Mas espere um pouco: Nenhuma pessoa se torna livre por meio dessas coisas.
Hoje, estamos vivenciando uma situação na qual estamos amarrados pela pressão por produzir, onde as relações são marcadas pela inveja.
Estamos sobrecarregados…
A pressão e, acima de tudo, o medo da falha ficam cada vez maiores.
Isso não é liberdade!
(Segunda parte: Deus liberta!)
Na carta aos Gálatas, Paulo escreve: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, ao jugo da escravidão.”.
Deus não algema ninguém, Deus concede liberdade: Ele libertou o povo de Israel da escravidão – e o povo creu na sua promessa e seguiu o seu chamado. Eles confiaram em Deus, a quem eles não viam, mais do que no Faraó, sob cujo chicote eles sofriam. E quando estavam peregrinando pelo deserto, a situação deles lhes parecia sem perspectiva: eles experimentaram fome, perseguição e medo. Mas eles experimentaram, também, a permanência de Deus entre eles, que Deus os acompanhou, os salvou, os encorajou e os ajudou durante o período da travessia do deserto. E, assim, eles chegaram à “terra prometida”. Na proximidade e no compromisso com Deus, eles encontraram a liberdade!
Deus concede liberdade e foi “para a liberdade que Cristo nos libertou!”. Isso também foi importante para Martim Lutero. Ele disse: “Eu quero confiar mais em Jesus do que em todos os outros poderes do mundo. A isso eu me apego!”. Lutero confiava totalmente em Deus e se mantinha firme em suas promessas – e desse modo ele foi liberto. “Eis o segredo: No apego a Deus, me torno liberto”!
(Terceira parte: Cativo, mas, contudo, livre!)
Sou realmente livre? Como posso me tornar uma pessoa cristã livre?
Olhemos para as dádivas de Deus:
Sou criatura amada e única de Deus.
Ele me ama apesar dos meus pecados e dos meus erros.
Ele me perdoa e me presenteia, todos os dias, com o seu “sim”.
Ele me concede a promessa de vida em seu Reino de paz e justiça.
Desse modo, Ele me concede fé, esperança e amor. Não em virtude do meu desempenho, nem por causa do meu merecimento, mas por amor a mim. Não preciso demonstrar nada, nem preciso dar provas da fé. Somos justificados por Deus quando nos unimos firmemente a Jesus.
Dessa maneira, me comprometo com Jesus, entregando-lhe a minha vida, o meu destino, a minha dignidade, o meu futuro – e, assim, tornar-me-ei verdadeiramente livre.
Passo, então, a ser livre para mim mesmo, livre para os meus semelhantes, livre para o meu trabalho. Minha vida é apoiada e sustentada por Deus – tal qual acontece com o alpinista ao ter o peso do seu corpo sustentado por cordas e cabos. É nessa exata condição que tem início a verdadeira Vida.
E é justamente ali, nesse ponto, que se inicia a aventura da fé:
Que tipo de decisão tomarei, como filho ou filha de Deus, quando se tratar, por exemplo, do convívio com os pobres?
Como preservarei a criação de Deus?
Como faremos para encontrar caminhos que nos conduzam à paz e à justiça, tanto em nosso país, quanto em nossas cidades, ou em nível mundial?
Quais são as nossas incumbências como comunidade, como cristãos em nosso meio social?
Nós temos a liberdade para decidir e escolher – e, se preciso for, colocarmo-nos contra o governo e também contra a Igreja. E Martim Lutero tomou essa decisão e fez essa escolha.
(Conclusão)
“Eu sou ‘cativo’ à Palavra de Deus” disse Martim Lutero e experimentou incomensurável liberdade em sua vida.
O ato de celebrar o Dia da Reforma nos permite que festejemos a liberdade na unidade com Jesus Cristo e que vivamos em comunidade!
A esse respeito permitam que conversemos, oremos, discutamos, e edifiquemos.
“A Igreja precisa estar em constante e permanente reforma” (“ecclesia semper reformanda”) disse Lutero. Que façamos isso tanto aqui em Brasília quanto na nossa Comunidade em Nürnberg.
Louvado seja Deus que, para liberdade, nos chama e para a liberdade nos conduz!
Amém.

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