Mensagem da Presid√™ncia da IECLB – Elei√ß√Ķes 2014

23
Set
Publicado em: Eventos por


Elei√ß√Ķes 2014
O exercício da fé cidadã

O povo brasileiro experimenta um per√≠odo democr√°tico duradouro. Ao longo de v√°rias d√©cadas ele vem tendo a oportunidade para se manifestar e expressar a sua opini√£o por ocasi√£o da elei√ß√£o de pessoas para fun√ß√Ķes nos n√≠veis municipal, estadual e federal. No m√™s de outubro deste ano, milh√Ķes de brasileiros e de brasileiras ir√£o se dirigir √†s urnas com o objetivo de eleger representantes para os legislativos e executivos estaduais e federais.

O cen√°rio eleitoral mostra que essa rotina est√° permeada por sentimentos contradit√≥rios. Observa-se, de um lado, entusiasmo e grande paix√£o. De outro lado, verifica-se um des√Ęnimo em setores significativos da sociedade. Apesar das mudan√ßas e das melhorias acontecidas em diversas √°reas, podem ser elencados problemas e dificuldades que perduram.

A consolidação de uma rotina eleitoral, sinal de amadurecimento da democracia, por sua vez, também desperta certa frustração com o sistema político brasileiro. O nível de informação sobre a realidade cresce em meio à população e a democracia representativa parece não dar conta das dificuldades que perduram.

O descr√©dito para com a classe pol√≠tica e a fragilidade dos processos decis√≥rios fazem crescer a vontade de uma maior participa√ß√£o cidad√£ nas decis√Ķes que envolvem projetos, investimentos e gest√Ķes p√ļblicas. As pessoas querem sair da sua posi√ß√£o de expectadoras e desejam uma interven√ß√£o mais decidida na formula√ß√£o, implementa√ß√£o e fiscaliza√ß√£o de pol√≠ticas p√ļblicas. Surge a consci√™ncia de que democracia √© mais do que o simples exerc√≠cio do voto a cada dois ou quatro anos. Emerge a perspectiva de que a cidadania diz respeito √† participa√ß√£o e ao envolvimento pol√≠tico no cotidiano da vida.

A Igreja Evang√©lica de Confiss√£o Luterana no Brasil (IECLB) est√° envolvida com o processo pol√≠tico brasileiro. Ao longo das tr√™s √ļltimas d√©cadas, emitiu cartas pastorais, posicionamentos e declara√ß√Ķes sobre temas da realidade brasileira. Com toda clareza a Igreja evita separar a f√© e a pol√≠tica, ainda que as distinga. Com muita convic√ß√£o ela afirma a dignidade da voca√ß√£o pol√≠tica e a reconhece como um chamado a servi√ßo do povo com vistas √† promo√ß√£o da justi√ßa, da paz e da fraternidade.

A partir da teologia luterana, entende-se que Deus tem o Estado como instrumento de a√ß√£o no mundo. Deus coloca a seu servi√ßo governos e institui√ß√Ķes, independente de sua orienta√ß√£o religiosa. Mesmo que ao longo do tempo tenha havido uma mudan√ßa nas estruturas pol√≠ticas e em sua representa√ß√£o, o Estado torna-se insubstitu√≠vel. A sua supera√ß√£o dar-se-√° somente quando a lei estiver inscrita no cora√ß√£o das pessoas (Ezequiel 36.26s) e quando Deus habitar no meio do seu povo (Apocalipse 21.3s).

A IECLB faz parte da tradição protestante que se empenha pela separação de religião e Estado. Preconiza a defesa do Estado laico. A IECLB incentiva sempre a participação em partidos políticos como canais institucionais que expressam valores e ideologias presentes na sociedade brasileira. Condena vícios nefastos presentes na cultura política brasileira. Dentre eles, destaca-se o clientelismo, o coronelismo e a defesa de interesses meramente corporativos e pessoais. Por isso, para a IECLB, o assédio às pessoas identificadas com a fé evangélica por parte de candidatos/as e a tentativa de transformá-las em um curral eleitoral representam um grande desserviço à democracia.

A IECLB evita a tentação de exercer qualquer tipo de tutela sobre os seus membros. Ela não tem candidatos próprios por uma questão de princípio: ela não é partido político! A partir do Evangelho, as pessoas, ao mesmo tempo cidadãs e membros da Igreja, têm uma profunda liberdade para agir responsavelmente na sociedade e no mundo. Nenhuma pessoa pode ser coagida a agir contra a sua consciência. Nenhuma liderança eclesiástica pode impor qualquer candidatura ou proposta político-partidária. Deve, isso sim, incentivar a reflexão sobre valores e princípios a serem considerados nas escolhas políticas.

Com base nessa visão, torna-se condenável o uso e abuso de símbolos religiosos ou mesmo o nome de Deus como forma de sensibilização para ganhar o voto das pessoas. Para a teologia luterana, Deus fica descartado como cabo eleitoral e nenhuma candidatura pode arvorar-se como preferida de Deus. O uso do nome de Deus para mascarar interesses particulares torna-se uma ofensa a Seu nome. A defesa de interesses pessoais e corporativos, inclusive de igrejas, representa uma forma de egoísmo grupal. Pisoteia o valor sublime da política que se caracteriza pela dedicação ao bem comum, pela defesa da dignidade humana e pela transformação da sociedade.

A partir da liberdade proporcionada por Cristo, as pessoas evang√©lico-luteranas chamam a si a prerrogativa da cr√≠tica e do questionamento √†s institui√ß√Ķes quando estas n√£o estiverem a servi√ßo da justi√ßa, da paz e da integridade da cria√ß√£o. Pessoas evang√©lico-luteranas n√£o voltar√£o as costas para a pol√≠tica quando regimes e governos estiverem prestando um desservi√ßo √† sociedade. Contribuir√£o, isso sim, para a sua reforma, seu redirecionamento, sua transforma√ß√£o ou sua substitui√ß√£o segundo os prop√≥sitos de Deus.

No ano em que a IECLB celebra seus 190 anos de hist√≥ria e tem como tema ‚ÄĚviDas em comunh√£o‚ÄĚ, o processo eleitoral torna-se uma oportunidade para fortalecer vias que promovam a ‚Äúpaz da cidade‚ÄĚ. Em meio √† efervesc√™ncia eleitoral, os membros das comunidades s√£o chamados para o exerc√≠cio da f√© cidad√£ de forma respons√°vel, evitando (sobretudo nos debates nas redes sociais) linguagens generalizantes de uma cr√≠tica f√°cil e superficial. Igualmente, todas as pessoas s√£o conclamadas para o exame cuidadoso dos hist√≥ricos de vida das candidaturas, das suas trajet√≥rias pol√≠ticas, dos seus programas, dos seus compromissos assumidos e a discernir o projeto a ser apoiado √† luz dos valores evang√©licos.

Exercitemos, pois, a cidadania que brota da fé! Participemos da vida política como resposta à vocação de Deus! Oremos a Deus para que a civilidade, a paz, a justiça, a harmonia, a liberdade, a democracia se tornem realidade pelos vínculos baseados no respeito, no diálogo, na gratidão, na partilha e na diaconia!

Procurai a paz da cidade para onde vos desterrei e orai por ela ao Senhor, porque na sua paz vós tereis paz (Jeremias 29.7).

Nestor Paulo Friedrich

Pastor Presidente

Extratos de manifesta√ß√Ķes da Presid√™ncia da IECLB no passado

‚ÄúO engajamento pol√≠tico, empenho pelo bem comum, defesa da justi√ßa √© mandato de Deus e uma forma de servir √†s pessoas e ao pr√≥prio Criador. A tentativa de se esquivar desta tarefa significa tornar-se culpado no mandamento do amor, que na a√ß√£o pol√≠tica possui um de seus mais eficazes instrumentos. Creio que esta deveria ser uma premissa comum de todo crist√£o luterano.‚ÄĚ (P. Gottfried Brakemeier. Igreja e Pol√≠tica, 1988)

‚ÄúA quest√£o do governar √© relacionada com a f√© em Deus, porque ele √© Senhor soberano sobre todos. Segundo esse preceito, governantes n√£o s√£o nada mais e nada menos do que cooperadores na preserva√ß√£o e promo√ß√£o de vida digna para toda a cria√ß√£o. Este √© o objetivo geral que perpassa toda a B√≠blia.‚ÄĚ

‚ÄúPol√≠tica, portanto, deve ser medida por este crit√©rio b√°sico. Toda pessoa cidad√£ e, sobretudo, aquela comprometida com a f√© crist√£, tem a responsabilidade de medir e avaliar os programas pol√≠ticos. Nesta √©poca pr√©-eleitoral importa conhecer tamb√©m a biografia dos candidatos, sua inser√ß√£o comunit√°ria, sua honestidade e transpar√™ncia, seu compromisso com o bem comum e com uma justi√ßa social que alcance, sobretudo, os segmentos mais sofridos da sociedade.‚ÄĚ (P. Huberto Kirchheim. Elei√ß√Ķes 2002. Palavra orientadora)

‚ÄúUm princ√≠pio fundamental da Reforma, no s√©culo XVI, e parte integrante da confessionalidade luterana, √© tamb√©m o total respeito √† consci√™ncia de cada pessoa e √†s suas pr√≥prias decis√Ķes de f√©, ainda que a Igreja deva proclamar sempre e em todos os lugares os valores da Palavra de Deus. Entre estes se destacam o cuidado para com toda a cria√ß√£o, a dignidade de todo ser humano como criatura criada √† imagem de Deus e a edifica√ß√£o de comunidades acolhedoras e fraternas, nas quais n√£o haja exclus√Ķes e onde, por isso mesmo, gozam de especial carinho todas as pessoas pobres, as que padecem necessidades ou sofrem injusti√ßas e opress√£o.

Esses s√£o princ√≠pios b√°sicos que norteiam quem √© crist√£o em seu discernimento √©tico e tamb√©m na avalia√ß√£o das propostas pol√≠ticas em debate na Na√ß√£o. Repudiamos como incompat√≠vel com a f√© crist√£ todas as tentativas de ‚Äúsacralizar‚ÄĚ o embate pol√≠tico, sobretudo qualquer tentativa de ‚Äúsatanizar‚ÄĚ ou ‚Äúdemonizar‚ÄĚ pessoas ou for√ßas pol√≠ticas advers√°rias. Quem o faz deve se perguntar e ser questionado se n√£o est√° sendo ele pr√≥prio instrumento da injusti√ßa e do mal. J√° h√° quase cinco s√©culos, o Reformador Lutero repudiou completamente o conceito de ‚Äúguerra santa‚ÄĚ como falsifica√ß√£o da palavra de Deus. Devemos resistir √† tenta√ß√£o de reintroduzi-lo em nossas consci√™ncias e na vida pol√≠tica.‚ÄĚ (P. Walter Altmann. Pelo fim da guerra santa nas elei√ß√Ķes. 2010).

http://www.luteranos.com.br/conteudo/eleicoes-2014-o-exercicio-da-fe-cidada



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