25 anos de caminhada da diaconia na IECLB

11
Abr
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Fortalecendo a diaconia comunit√°ria em rede
25 anos de caminhada da diaconia na IECLB

Introdução
O presente texto destaca os 25 anos de caminhada da diaconia na IECLB, a partir da cria√ß√£o do Departamento de Diaconia, em 1988. Num primeiro momento, em retrospectiva hist√≥rica, ressaltam-se importantes avan√ßos obtidos neste per√≠odo com a maior articula√ß√£o da diaconia comunit√°ria em rede, atrav√©s da atua√ß√£o da Coordena√ß√£o de Diaconia. De igual modo, se refor√ßa a relev√Ęncia da forma√ß√£o diaconal em n√≠vel superior e o reconhecimento do minist√©rio diaconal e da ordena√ß√£o para este minist√©rio na IECLB. Num segundo momento, a partir do Tema do Ano, se evidencia que a diaconia √© uma dimens√£o fundamental para a viv√™ncia comunit√°ria. Na pr√°tica, por√©m, muitas vezes ela ainda n√£o √© assumida como uma prioridade pelas comunidades. O desafio de um crescente fortalecimento da diaconia comunit√°ria poder√° potencializar ainda mais a articula√ß√£o de a√ß√Ķes em rede.
Breve retrospectiva histórica
A pr√°tica diaconal na IECLB remonta √† cria√ß√£o das primeiras comunidades luteranas no Brasil. O servi√ßo e o atendimento √†s pessoas doentes, √†s pessoas idosas e √†s crian√ßas, por exemplo, foi algo que caracterizou a viv√™ncia da f√© e sua pr√°tica no √Ęmbito comunit√°rio. No in√≠cio do s√©culo XIX, as comunidades sentiram, de maneira muito forte, a falta de profissionais na √°rea da sa√ļde e educa√ß√£o infantil. Para suprir esta car√™ncia, uma Casa Matriz de Diaconisas, em Wittenberg, formava estas profissionais para o exterior. Nela n√£o ingressavam somente mulheres alem√£s, mas tamb√©m brasileiras. Infelizmente, a vinda de diaconisas foi duas vezes interrompida pelas Guerras Mundiais. Mas as que aqui trabalharam lan√ßaram a semente para iniciativas diaconais importantes, at√© que, em 1939, uma Casa Matriz de Diaconisas tamb√©m foi fundada no Brasil. Reconhecendo a import√Ęncia de pessoas capazes de coordenar e incentivar trabalhos, as diaconisas sempre receberam muito apoio por parte das comunidades, principalmente de grupos de mulheres.
A diaconia na IECLB ganhou uma nova expressão, na década de 70 do século passado, com a criação, em 1974, pela Casa Matriz de Diaconisas, do Seminário Bíblico-Diaconal. Esta escola passou a formar assistentes comunitárias, em curso com a duração de três anos, que obteve o reconhecimento da IECLB para a habilitação ao ministério diaconal.
Em 1976, estudantes egressos do Semin√°rio B√≠blico-Diaconal e da Associa√ß√£o Diac√īnica Luterana (ADL) criaram a Comunh√£o de Obreiros Diaconais (COD), hoje denominada de Comunh√£o Diaconal. Existem, desde ent√£o, duas comunh√Ķes diaconais na IECLB: a comunh√£o da Irmandade Evang√©lica Luterana, que congrega diaconisas, irm√£s diaconais e pastoras com identifica√ß√£o diaconal, e a Comunh√£o Diaconal, que √© um importante espa√ßo de comunh√£o, de reflex√£o e de articula√ß√£o entre as di√°conas e os di√°conos da IECLB.
N√£o obstante a relev√Ęncia da diaconia na vida comunit√°ria, faltava-lhe, contudo, maior express√£o de reconhecimento em √Ęmbito nacional, na estrutura da pr√≥pria igreja. Havia a expectativa e o pedido das comunh√Ķes diaconais para que a diaconia tivesse uma representa√ß√£o na Secretaria Geral da IECLB. Esta aspira√ß√£o foi atendida, em 1988, com a cria√ß√£o do Departamento de Diaconia como parte integrante da Secretaria de Miss√£o. Para a fun√ß√£o de diretora deste Departamento foi escolhida uma diaconisa, a Ir. Hildegart Hertel. Ela atuou ¬†at√© o ano de 2003 e deixou um importante legado.
O Departamento de Diaconia passou a articular e a integrar as mais diversas iniciativas diaconais comunit√°rias, em diferentes √°reas tem√°ticas. A √™nfase do trabalho do Departamento, neste per√≠odo, foi no sentido de promover incid√™ncia interna, em diferentes setores na IECLB, ajudando a formar convic√ß√£o de que a diaconia √© um minist√©rio, que deve ser tamb√©m valorizado e reconhecido como tal. De forma planejada, o Departamento atuou para prover motiva√ß√£o e lideran√ßa para um significativo n√ļmero de lideran√ßas que atuavam de forma volunt√°ria em √Ęmbitos locais: para oferecer espa√ßos de encontro, compartilhar as experi√™ncias e articular as iniciativas, avan√ßar no planejamento conjunto, bem como para oferecer capacita√ß√£o, tanto teol√≥gica quanto pr√°tica.
Diferentes √°reas tem√°ticas, com distintos p√ļblicos, receberam destaque e passaram a ser desenvolvidas de forma mais integrada, cada qual com a sua respectiva comiss√£o organizadora, sob a coordena√ß√£o do Departamento de Diaconia. Entre as tem√°ticas que foram acompanhadas, destacam-se as atividades com pessoas idosas, crian√ßas e adolescentes empobrecidos e pessoas com defici√™ncia; sa√ļde comunit√°ria, HIV/AIDS, acompanhamento de pessoas doentes e em fase terminal; volunt√°rios de miss√£o (programa de acompanhamento a estudantes alem√£es) e forma√ß√£o de multiplicadores e multiplicadoras em diaconia.
Há que se destacar que, com a criação do Departamento de Diaconia, uma das áreas temáticas que recebeu maior impulso foi o trabalho com pessoas com deficiência, fato este que levou à criação, no ano de 1992, de um setor específico dentro do Departamento, intitulado Diaconia Inclusão. Este setor passou a ter uma pessoa responsável atuando, por vezes, de forma parcial e, na maior parte do tempo, com dedicação exclusiva.
Diaconia e desenvolvimento
H√° que se destacar, igualmente, que a cria√ß√£o do Departamento de Diaconia, em 1988, promoveu maior colabora√ß√£o e sinergia entre a diaconia e os projetos de desenvolvimento, resultando na integra√ß√£o do Servi√ßo de Projetos de Desenvolvimento (SPD) sob a supervis√£o do Departamento. O SPD, cuja exist√™ncia remonta √† segunda metade da d√©cada de 1960, contava com parcerias de coopera√ß√£o internacional no apoio a projetos de desenvolvimento. Os projetos apoiados, naquele tempo, tinham rela√ß√£o, sobretudo, com as √°reas da agricultura, da educa√ß√£o e da sa√ļde. Sob o acompanhamento do Departamento, o SPD passou gradualmente a ter uma atua√ß√£o mais integrada com a diaconia na IECLB. Esta rela√ß√£o de di√°logo e coopera√ß√£o entre diaconia e desenvolvimento persiste ainda hoje, mesmo que j√° n√£o mais sob o mesmo abrigo jur√≠dico, pois em 2000 foi criada a Funda√ß√£o Luterana de Diaconia (FLD).
A FLD √© uma institui√ß√£o aut√īnoma de direito privado, criada por decis√£o do Conselho da IECLB, para suceder o SPD na tarefa de ampliar e qualificar a mobiliza√ß√£o de recursos e a gest√£o de projetos sociais em √Ęmbito nacional. Mais recentemente, h√° dois anos, a FLD lan√ßou um edital espec√≠fico para o apoio a projetos diaconais de grupos e/ou organiza√ß√Ķes que mant√™m v√≠nculo confessional com a IECLB. Desta forma, sem abdicar de sua atua√ß√£o p√ļblica e ecum√™nica, no apoio a grupos e organiza√ß√Ķes da sociedade civil, a FLD reafirma o seu compromisso com o fortalecimento da diaconia, em √Ęmbito local, seja comunit√°rio ou institucional, e que represente um compromisso efetivo do grupo proponente com a promo√ß√£o da qualidade de vida, da cidadania e da justi√ßa social no seu respectivo √Ęmbito de atua√ß√£o.
A d√©cada de 80, portanto, representou um per√≠odo muito importante para a diaconia na IECLB, considerando que, a partir de uma nova percep√ß√£o do contexto socioecon√īmico do pa√≠s, com seus m√ļltiplos desafios, se buscou fortalecer a capacidade de resposta diaconal das comunidades, numa perspectiva transformadora da realidade de sofrimento e de exclus√£o de setores, de grupos e de pessoas. Para tanto, tamb√©m foi importante a decis√£o estrat√©gica de integrar o SPD e o seu mandato de apoio √†s iniciativas de desenvolvimento socioecon√īmico sob a coordena√ß√£o do Departamento de Diaconia. Esta rela√ß√£o entre diaconia e desenvolvimento, por mais relevante e necess√°ria que seja, por√©m, n√£o est√° isenta de tens√Ķes e, eventualmente, de alguns conflitos.
A rela√ß√£o entre diaconia e desenvolvimento se expressa tamb√©m, de forma ecum√™nica, atrav√©s da participa√ß√£o da IECLB na DIACONIA, de Recife, criada em 1967, e na Coordenadoria Ecum√™nica de Servi√ßos (CESE), cuja sede fica em Salvador. A CESE foi fundada em 1973, mas a ades√£o da IECLB se efetivou somente em 1983. Adicionalmente, em √Ęmbito internacional, a IECLB integra a Diakonia of the Americas and Caribbean (DOTAC), participa de e colabora com as iniciativas diaconais, de ajuda humanit√°ria e de desenvolvimento da Federa√ß√£o Luterana Mundial (FLM) e do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).
Diaconia e ministério compartilhado
A caminhada para o reconhecimento e a equipara√ß√£o de diferentes minist√©rios ordenados na IECLB exigiu muita capacidade de di√°logo e de negocia√ß√£o. Em 1994, com a aprova√ß√£o do programa Minist√©rio Compartilhado, a IECLB deu um importante passo rumo ¬†√† equipara√ß√£o dos minist√©rios pastoral, catequ√©tico e diaconal. Tal decis√£o, sem d√ļvidas, representou um avan√ßo muito importante para o reconhecimento do minist√©rio diaconal. Em 1998, se incluiu ainda o minist√©rio mission√°rio no elenco ¬†dos minist√©rios compartilhados.
Em fins de 1998, o Semin√°rio B√≠blico-Diaconal e a Associa√ß√£o Diac√īnica Luterana (ADL) encerraram suas atividades como centros de forma√ß√£o de obreiros/as para o minist√©rio diaconal. A partir de 1999, a forma√ß√£o diaconal foi transferida para a Escola Superior de Teologia (EST), obtendo assim ¬†n√≠vel superior. O Semin√°rio B√≠blico-Diaconal foi fechado e a ADL retomou sua voca√ß√£o de preparar lideran√ßas comunit√°rias com enfoque diaconal, como fazia originalmente. Em 2002, a EST iniciou o bacharelado em teologia com tr√™s √™nfases: educa√ß√£o crist√£, diaconia e pastorado.
Com a aprovação do Estatuto do Ministério com Ordenação (EMO), em 2002, o ministério diaconal recebeu o reconhecimento oficial na IECLB, e a ordenação de diáconos, diáconas e diaconisas foi devidamente regulamentada. Reconheceu-se que, para desenvolver trabalhos diaconais voluntários nas comunidades, é preciso haver lideranças vocacionadas e devidamente capacitadas para sua orientação.
A partir de 2003, a Faculdades EST formou bachar√©is em teologia, com √™nfase em diaconia. Na d√©cada de 2000, se ampliou tamb√©m o n√ļmero de estudantes de p√≥s-gradua√ß√£o (mestrado e doutorado) que passaram a pesquisar temas com √™nfase diaconal. Desta forma, ampliou-se igualmente a produ√ß√£o de bibliografia especializada sobre diaconia, de autoria nacional. Em 2006, no processo de reorganiza√ß√£o da Secretaria Geral, o Departamento de Diaconia foi transformado em Coordena√ß√£o de Diaconia. E, desde 2008, a Coordena√ß√£o de Diaconia est√° abrigada sob a coordena√ß√£o da Secretaria de A√ß√£o Comunit√°ria, juntamente com a Coordena√ß√£o de G√™nero, Diaconia Inclus√£o e Volunt√°rios de Miss√£o.
Em 1996, a IECLB instituiu o Dia Nacional de Diaconia, que √© celebrado anualmente no domingo Misericordias Domini (a miseric√≥rdia do Senhor). A finalidade desta data especial √© promover a ora√ß√£o e a reflex√£o nas comunidades e institui√ß√Ķes da IECLB sobre a diaconia, a partir do Tema do Ano.
A dimensão diaconal de nossa vivência comunitária
O Tema do Ano ‚Äď Ser, Participar, Testemunhar. Eu Vivo Comunidade ‚Äď nos convida para uma reflex√£o sobre a dimens√£o diaconal de nossa viv√™ncia comunit√°ria.
A retrospectiva hist√≥rica anterior destacou, de forma abreviada, os avan√ßos da IECLB, como igreja nacional, na sua express√£o, organiza√ß√£o e forma√ß√£o diaconal. √Č importante que como igreja possamos olhar de forma retrospectiva sobre o caminho percorrido, seja para destacar, valorizar e celebrar os avan√ßos obtidos, seja para constatar, reconhecer e criticar as omiss√Ķes e equ√≠vocos no caminho percorrido. Sem querer fechar os olhos para os problemas, h√° muito que valorizar e celebrar em gratid√£o a Deus.
O Tema do Ano de 2013 nos remete √† viv√™ncia comunit√°ria, no √Ęmbito local. Nossa compreens√£o eclesiol√≥gica valoriza a comunidade local como espa√ßo de viv√™ncia e de celebra√ß√£o da f√©, e de igual forma valoriza a express√£o confessional da nossa f√© nos √Ęmbitos nacional e ecum√™nico. Somos igreja de comunidades que caminham juntas.
Por isso, somos convidados/as a refletir e compartilhar sobre a forma como vivemos a nossa f√© em comunidade. H√° muitas e distintas formas de aprofundar este tema. No Dia Nacional de Diaconia, por√©m, buscamos refletir sobre a express√£o diaconal de nossa viv√™ncia comunit√°ria. Ou, em outras palavras, somos motivadas e motivados a nos questionar sobre qual √© o lugar e a import√Ęncia da diaconia na nossa viv√™ncia comunit√°ria. Esta √© uma quest√£o que merece tempo para ser refletida e compartilhada.
Para responder a esta pergunta n√£o precisamos permanecer t√£o somente no n√≠vel ideal, que, entrementes, j√° est√° bem difundido e aceito, ou ¬†seja, que a diaconia √© uma dimens√£o essencial e inerente da vida comunit√°ria. Dificilmente uma comunidade crist√£ n√£o vai ter alguma express√£o ou pr√°tica diaconal que possa ser descrita, apresentada ou compartilhada. Tais pr√°ticas s√£o importantes e precisam ser valorizadas no √Ęmbito comunit√°rio.
A questão, porém, é em que medida estas práticas são efetivamente um compromisso apropriado, assumido e apoiado pela comunidade Рou são iniciativas de pessoas ou de grupos, ou ainda de profissionais pagos pela comunidade, mesmo diáconos  diáconas e diaconisas, que assumem a tarefa em lugar da comunidade?
O compromisso diaconal exige pessoas, tempo e recursos para a sua concretiza√ß√£o. H√° diferentes formas de se envolver e apoiar as iniciativas diaconais no √Ęmbito comunit√°rio. Muitas pessoas n√£o t√™m tempo para se envolver diretamente na a√ß√£o, mas podem apoi√°-la e participar dela, seja com visitas espor√°dicas, seja pela sua ora√ß√£o e contribui√ß√£o financeira. H√° outras pessoas, por sua vez, que t√™m tempo, mas n√£o t√™m recursos. Estas podem oferecer a sua a√ß√£o volunt√°ria como uma efetiva colabora√ß√£o.
O compromisso diaconal comunit√°rio, como bem aponta o PAMI-Plano de A√ß√£o Mission√°ria da IECLB, tamb√©m exige planejamento. Na viv√™ncia comunit√°ria, a pr√°tica da diaconia tem rela√ß√£o direta com a proclama√ß√£o (testemunho) e a liturgia. E a inter-rela√ß√£o das tr√™s dimens√Ķes fomenta a comunh√£o.
Neste ano, em diálogo com o Tema do Ano, somos desafiados a assumir a diaconia (Ser), colaborar de forma ativa na sua execução (Participar) e compartilhar a fé que nos move à ação (Testemunhar). A prática diaconal é, efetivamente, uma dimensão necessária da nossa missão e que fortalece a vida comunitária. E o fortalecimento da diaconia comunitária, por sua vez, de forma articulada em rede, reforça a nossa presença e testemunho na sociedade brasileira.
Referências bibliográficas
ARMANI, Domingos (Coord.). Diagnóstico participativo do Serviço de Projetos de Desenvolvimento (SPD) da IECLB. Relatório geral. Porto Alegre, maio de 1999.
BEULKE, Gisela. A história do ministério diaconal da IECLB. In: Estudos Teológicos, v. 47, n. 1, p. 144-165, 2007.
FEDERAÇÃO LUTERANA MUNDIAL. Diaconia em Contexto. Transformação, Reconciliação, Empoderamento. Genebra: FLM, 2009 (Tradução brasileira: IECLB, 2012).
HERTEL, Hildegart (Coord.). Valores do Berço. Trajetória da Família Germano e Rosa Hertel. São Leopoldo: Oikos, 2012.
HOCH, Lothar Carlos. A Diaconia na IECLB. O despertar de uma igreja para um ministério esquecido. In: Estudos Teológicos, v. 45, n. 1, p. 21-31, 2005.
IGREJA EVANG√ČLICA DE CONFISS√ÉO LUTERANA NO BRASIL. Ser, Participar, Testemunhar. Eu Vivo Comunidade. Guia de Estudos. Tema e Lema do Ano. Porto Alegre: IECLB, 2013.
Carlos Gilberto Bock
Teólogo РSecretario Executivo da FLD
Colaboração da Diac. Ruthild Brakemeier
Mais informa√ß√Ķes:¬†www.fld.com.br



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